DIU Mirena é bom? Faz mal ficar sem menstruar?

O DIU “Mirena” libera levonorgestrel, uma progesterona que é absorvida localmente. Ou seja, comparado à pilula anticoncepcional combinada (que sempre tem etinilestradiol mais uma progesterona) ele tem menos efeitos colaterais porque não precisa ser metabolizado pelo fígado. Mas os efeitos colaterais descritos são vários: enxaqueca, perda de cabelo, cólicas, irregularidades menstruais (sim, nem todas as mulheres deixam de menstruar, muitas continuam tendo escapes).

Foi desenvolvido pensando-se em oferecer tratamento para mulheres que realmente não podem menstruar, por problemas hematológicos que provocam anemias severas, para quem o contraceptivo oral está contra-indicado, ou para mulheres que tem endometriose. Aqui é bom fazermos uma pausa porque a endometriose tem sido bastante sobrevalorizada enquanto diagnóstico, na medida em que se disseminam seus métodos diagnósticos (videolaparoscopia). Quem conhece a relação mais obstetras, mais cesarianas certamente vai entender.

Não quero dizer com isso, que não haja mulheres que sofrem, precisam de tratamento e que melhoram muito com DIU Mirena, somente tento alertar para os perigos de se pisar em um consultório com queixa de cólicas e dali sair com diagnóstico de endometriose sem que se tente antes identificar outras possíveis causas relacionadas à estilo de vida, sexualidade, etc.

Quanto à parada da menstruação (amenorréia) provocada pelo dispositivo, é preciso reconhecer que é considerada uma bênção por muitas mulheres. Nem todas as mulheres desejam conectar-se com seus ciclos e o reconhecem como algo sagrado e saudável. Muitas mulheres sentem que o período menstrual é algo muito incômodo, que não as permite trabalhar e tocar a vida de maneira “normal”.

Não vou discutir aqui os benefícios de utilizarmos nosso ciclo a nosso favor e à favor de nosso auto-conhecimento. Mas é preciso pontuar que muitas racionalidades médicas, como a medicina tradicional chinesa, a homeopatia, a ayurveda, a antroposofia, reconhecem na menstruação uma maneira de entendermos como vai nossa saúde.  Provocar a suspensão da menstruação é algo que pode provocar desarmonia para essas “medicinas”.

Em tempos de medicina mercantil, é preciso que as mulheres conheçam o grande conflito de interesses que está em jogo quando um médico lhes sugere o Mirena como método. A maioria dos médicos ganha do laboratório ou dos seus representantes (aquela moça bem vestida com aquela pasta preta de rodinhas, que entra no consultório antes de você, rapidinho, para “educar” seu médico) um certo número de DIUs para cada tantos DIUs inseridos…Um outro tanto cobra um valor (“por fora” do convênio) para inserir o DIU. Na rede pública só há DIU Mirena disponível para mulheres para quem está indicada a suspensão da menstruação.

Ou seja, o DIU Mirena cai como uma luva em ambas as mãos: no interesse comercial dos médicos e na crença propalada há bastante tempo sobre a inutilidade da menstruação para as mulheres.

No mais, a inserção do DIU Mirena e do DIU de cobre pode ser feita em ambulatório, de preferência durante o período menstrual (quando o colo está entreaberto e sabemos que não há gravidez), com orientação para uso de anti-inflamatório dois dias antes até o momento da inserção, acupuntura como analgesia, exercícios respiratórios para o relaxamento e anestesia local se for o caso de muita dor. Um pinçamento delicado, com a mulher em posição confortável (a mesa ginecológica não é confortável e não é preciso perneiras para exame ginecológico!!!!) pode ser quase indolor. Ser submetida a indução anestésica parece-me um exagero…mas é preciso reconhecer que algumas mulheres podem não suportar a dor e por isso desejarem que o procedimento aconteça em ambiente hospitalar.

Enfim, antes de pensar no Mirena você já pensou sobre por que não deseja menstruar? Você já pensou em começar a dançar e fazer a pelve balançar para aplainar dores? Você já refletiu sobre como vai sua vida sexual? Sobre o peso de seu trabalho sobre você que não pode descansar ou repousar um ou dois dias quando precisa? Você procurou informações sobre métodos não hormonais como DIU de cobre, diafragma, camisinha? Você já vislumbrou amigar-se do seu ciclo, observar seu muco cervical, medir sua temperatura? 

Halana Faria

Coletivo  Feminista Sexualidade

Créditos imagem: Juliaro (http://palomailustrada.blogspot.com.br/)

 

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12 comentários

  1. Adorei o que vc escreveu! Acho que essa coisa de não gostar da menstruação vai muito além da mulher e seu corpo, mas de como isso é visto na sociedade em que vivemos. Conheci o Coletor Menstrual e achei um máximo. Me proporcionou essa conexão com meu ciclo, minhas secreções, enfim meu corpo!

  2. Bom dia Dra!!
    Para mim o Mirena foi ótimo. Me livra do medo de uma gravidez indesejada, não tenho nenhum efeito colateral e eu continuo menstruando (e gosto de menstruar.. na verdade me assusta mulher que prefere não menstruar!!). Como não sou disciplinada para tomar pílulas e nem verificar ciclos, o Mirena pra mim é vida…. e bem que podia durar uns 10-15 anos! rsss

    Um beijo!

    1. Olá. A cada 100 mulheres que usam DIU de cobre em 1 ano 0,4 vão engravidar. Para o Mirena esse número é mais próximo de zero. A diferença é pequena. O importante é saber dos outros efeitos colaterais e o que é melhor para você.

  3. Olá. Acho extremamente importante apontarmos a reflexão de que cada corpo funciona de uma maneira. O que é bom para mim, pode não ser bom para o outro, se tratando de aspectos fisiológicos ou mesmo psicológicos.
    Eu sou uma paciente que faz uso do Mirena em decorrência de uma endometriose que já me causou (e me causa) dores intensas, quase insuportáveis. Fiz a opção pelo Mirena depois de procurar por anos diversas formas de tratamento que não me trouxeram melhora significativa.
    No dia da inserção do dispositivo, realizada num hospital público de altíssima qualidade, recebi anestesia local e, ainda assim, tive uma dor absurda, talvez a maior já sentida na minha vida (foi necessária uma hora mais ou menos para o controle dessa dor, com medicamentos intra venosos). A justificativa para tamanha dor, além da óbvia questão da reação individual de cada organismo, foi o fato de eu nunca ter engravidado e passado por um processo de parto (me foi informado que o pinçamento do útero por mulheres que nunca engravidaram pode causar muita dor).
    Acredito, portanto, que a anestesia local com uma sedação, no meu caso, não teria sido um exagero. Teria, sim, evitado um sofrimento intenso causado no meu corpo e na minha mente.
    Sei que uma maioria das mulheres não passa por esse problema na inserção do Mirena, mas acho importante relatar que isso pode ocorrer.
    Hoje eu me mantenho fazendo o uso do Mirena. Não parei de menstruar, mas a diminuição do fluxo também diminuiu minhas cólicas. Essas não pararam de existir, mas hoje eu consigo ter uma qualidade de vida muito melhor durante o meu ciclo.
    Sou psicóloga e não poderia deixar de acreditar na importância do conhecimento e da aceitação do próprio corpo. Se auto conhecer e se aceitar também implica na percepção de que, às vezes, precisamos recorrer a recursos da medicina convencional para termos a saúde física e mental mais equilibrada.

    1. Oi Raquel. Endometriose adequadamente diagnosticada, como explicado no texto é um bom motivo para usar Mirena. Quanto a dor na inserção, te pergunto, foi inserido durante seu período menstrual, quando o colo está entreaberto e não precisar ser dilatado à força?

      1. A inserção foi sim realizada no período menstrual, segundo à orientação da minha médica. Ainda assim a dor foi extremamente intensa. Por isso achei interessante colocar minha experiência, trazendo um questionamento mais focado na questão da analgesia mesmo.

  4. Eu faço uso do Diu mirena a 3 anos, sofri muito até meu corpo se adaptar a ele, tive muito sangramento intenso por 3 meses sem pausa, até pensei em tirar, mas sofria muito por conta da endometriose, então esperei até a adaptação do meu organismo. Tive ao longo tempo muita cólica, ñ menstruava, porém tinha um pequeno sangramento o mês inteiro e meu útero ficou do tamanho pr uma gestação de 4 meses, cresceu a barriga e tinha muita dor. Ainda estou com o mirena, mas ganhei saúde novamente, pq optei por um tratamento de natuterapia, agora tenho q tirar o Diu, pq o terapeuta acredita que existe a cura pra endometriose, e eu estou confiante, porque em 10 anos sofrendo, foi a unica coisa que funcionou na minha vida, até agora. Bora tirar esse Diu que estava mais fazendo mal do que bem .

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