Negação de acesso à contracepção não-hormonal – Por quê? E o que fazer?

Weeping Woman 1937 by Pablo Picasso 1881-1973
Weeping Woman 1937 Pablo Picasso

Foi a convite de uma paciente que entrei no grupo de facebook Adeus hormônios: contracepção não hormonal. Estou impactada com a potencialidade do grupo, enquanto movimento de troca de experiências e ajuda mútua no que concerne o universo feminino, e mais ainda com os repetidos relatos sobre a negação de acesso à contracepção não-hormonal presentes em suas narrativas. Uma delas diz assim:”meu gineco AC lover (doido por anticoncepcional) não permite que eu use DIU, toda vez que eu tento falar sobre isso ele diz que eu sou doida”.

As “pílulas” foram durante muito tempo consideradas um destino para as mulheres durante seu período reprodutivo, mas cada vez mais, notícias  alertam sobre seus riscos e potencializam a organização de mulheres como no grupo citado acima.

É claro que a leitura dessas reportagens nos permite identificar uma clara negligência na avaliação de riscos das pacientes, e até mesmo um certo desdém, como se pílulas fossem um “caramelo” inofensivo. E que cada vez mais é propagandeado para fins alheios a contracepção como melhorar a pele, diminuir retenção de líquido no período pré-menstrual, ‘aumentar libido’ (pasmem!)… Não é a toa que o  novo livro, de Holly Grigg-Spall, que em breve se tornará um documentário pelas  produtoras de “The business of being born”, chama-se “Sweetening the pill” (açucarando a pílula).

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E por que tamanha displicência? Bom, comentei em outro post que o discurso que defende a contracepção hormonal cabe como uma luva no modelo conceitual da ginecologia, mas também que a indústria farmacêutica soube apropriar-se muito bem desse discurso. Essa relação inescrupulosa entre interesses da indústria farmacêutica e a própria medicina tem sido discutida por muitas organizações e profissionais (veja aqui a excelente teleconferência com o médico Ronaldo Zonta sobre o tema).

As denúncias sobre o comportamento de médic@s e pesquisadores, nos estandes de indústrias e laboratórios em Congressos Científicos, são vergonhosas e satíricas. O pediatra Daniel Becker descreve pediatras disputando lugar na fila para participar de brincadeira e ganhar papinha no estande da Nestle. Já o pesquisador Olavo Amaral, escreve um diário, na revista Piauí de setembro, depois de ter sido “intoxicado por ofertas” em Congresso de Psiquiatria. Poderia fazer rir, mas é muito dramático e grave para ser engraçado.

Principalmente quando consideramos que as medicações “propagandeadas” podem ter graves efeitos colaterais, e quando, no caso da ginecologia, existem opções contraceptivas não hormonais raramente discutidas e recomendadas. Quando pílulas podem ser prescritas para quase metade da população, pode-se imaginar a “dedicação” que essa indústria destina aos médic@s, serviços, instituições formadoras e de pesquisa. Não surpreende que nos deparemos com notícias do tipo: EMS investe R$ 1,5 milhão em estande inovador para o Congresso de Ginecologia e Obstetrícia (!!!)

No hospital onde fiz residência, em toda “reunião clínica”,  representantes de diferentes laboratórios faziam um verdadeiro corredor polonês seduzindo residentes mal-dormidos com bolsas plásticas cor-de-rosa, canetas, bloquinhos, chocolates e o escambau. E o mais assustador, é que a maioria achava que não receitaria uma medicação só porque estava escrevendo a receita com o nome da pílula propagandeada pulando em rosa-choque da mesma.

Enfim, quando um@ médic@ prescreve uma pílula el@ está sim à mercê dessa influência. E esse é um dos motivos porque você não consegue informações sobre métodos não hormonais. Há pouca propaganda, são baratos, geram autonomia.

Por isso, se você quiser colocar um DIU de cobre, vai ser convencida do contrário pelos mais variados motivos… você ainda não teve filhos,  aumenta o risco de DIP (doença inflamatória pélvica), etc…mas se o DIU é medicado com uma progesterona (Mirena) aí a coisa muda de figura. Isso não acontece à toa. Veja o folder da FEBRASGO (Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia). Qual é a propaganda que aparece ali? Acertou! Se é Bayer é bom. O laboratório que produz o Mirena! E se é Bayer é bom, não é mesmo? Não necessariamente

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Então você vai precisar estudar por conta própria e compartilhar com mulheres que não tem o mesmo acesso que você à informação, vai precisar questionar e discutir com @ profissional de saúde aquilo que considera melhor para você.

Para ajudar nessa busca, deixo aqui em baixo alguns materiais:

Uma revisão sobre o DIU

Uma revisão da Cochrane que compara o diafragma ao capuz cervical

Uma revisão que compara o uso do diafragma com e sem espermicida (já que não temos mais espermicida produzido no Brasil e essa é uma dúvida frequente)

Vídeo aula sobre o diafragma

A Artemis (artemis.org.br) também tem interesse em receber denúncias sobre a negação desse acesso e relatos podem ser encaminhados para: valeria@artemis.org.br

Halana Faria

Médica Ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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5 comentários

  1. Olá!

    Gostaria de sua ajuda, se possível. Estou namorando há alguns meses e em virtude da anatomia avantajada do meu namorado, a camisinha incomoda bastante. Já fizemos vários exames checando dsts e agora quero um método de contracepção não hormonal.

    Fui em três ginecologistas e nenhum me indicou algo que não fossem as pílulas (o melhor que consegui foi o anel vaginal que estou usando). Queria usar o diu e fui dissuadida e agora, quero usar um diafragma e nenhum quer me indicar – a última chegou a dizer que isso nem existia mais – e preciso de um médico, pois obviamente, não sei medir meu útero por conta própria.

    Estou usando o anel vaginal, mas já engordei e não quero me estender no uso de hormônios, pois minha mãe teve várias tromboses.

    Enfim, gostaria de conseguir um médico que saiba ou queira me indicar um diafragma (sou do RJ). Se você puder me indicar um, ficarei muito grata!

    Atenciosamente,

    Jacqueline.

    1. Oi Jacquline. Sugiro que você leia os artigos recomendados nos posts e tente conversar com um profissional de saúde. Tente uma unidade básica de saúde próxima a sua casa ou procure um grupo feminista atuante em sua cidade que possa indicar um profissional que ouça e respeite suas escolhas. Um abraço.

  2. Oi! Também sou médica e atuante em prol da liberdade e bem estar femininos. Mas não sou radicalmente contra ou a favor de métodos, sou a favor da orientação e conhecimento que devem ser buscados com transparência pelos profissionais e levados às nossas pacientes.
    Métodos contraceptivos de massa, que dão mais vantagens às instituições do que as mulheres raramente seriam prescritos se houvesse crítica e educação. Particularmente, não vejo vantagem em menstruação e acho muito curioso, atualmente, optar por abstinência ou por um filho indesejado. Diu de cobre é ótimo quando a mulher se adapta… Não é a maioria… Diafragma tem tido dificuldade de aquisição… Nesse contexto, os implantes se tornam uma ferramenta adequada, pra quem pode pagar… Estudos subestimam que até 30% das mulheres sofre de sintomas de TPM que influenciam negativamente nas suas vidas. Considero tal avaliação muito individual para ser uma escolha minha. Uso meu trabalho para orientar e promover conhecimento para que sejam feitas pelas próprias pacientes as melhores escolhas. Obrigada pela discussão, precisamos levar isso para fóruns, tendo em vista os potenciais malefícios dos métodos contraceptivos usuais.

    1. Oi Gisele. É justamente por haver monopólio de métodos hormonais e por não haver discussão sobre alternativas que estou escrevendo. Defendo escolha informada e isso é o que menos temos hoje em dia. Temos sim um monte de mulheres sendo persuadidas a usar pílulas conforme a maré das propagandas dos laboratórios farmaceuticos. Discuto isso em outro texto por aqui. Um abraço e obrigada pelo feedback. Abraço

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