Do Dr. Google aos grupos de apoio de Facebook. Sobre as potências e limites do cuidado em rede

wonderwomanA percepção de que os cuidados dispensados às mulheres seja inadequado e não responda às suas necessidades não é nova. Sentir-se desrespeitada em sua sexualidade, desconsiderada em sua angústia diante de uma gravidez indesejada ou diante dos medos de uma gravidez planejada, abusada, invadida por procedimento não informados e medicações repletas de efeitos colaterais são queixas que há tempos vem disparando a organização de mulheres.

As realizações do Coletivo de Boston (Boston Women Health Collective) são exemplares de como esse descontentamento pode culminar com a proposição de outras formas de cuidar. Através de encontros presenciais com mulheres desde a década de setenta e a partir de suas narrativas, o grupo tem produzido o livro Our bodies, Our selves, que traz as narrativas de mulheres e dialoga com suas múltiplas necessidades nos diferentes momentos de suas vidas (Confira o PDF de uma de suas edições em espanhol aqui).

Atualmente as redes sociais tem possibilitado conexão e troca entre mulheres de maneiras sem precedente e já são muitos os grupos que discutem exclusivamente saúde com um viés crítico. São exemplos o “Adeus Hormônios: contracepção não-hormonal” , “Ginecologia Natural”, “Tentantes empoderadas” (este último um grupo em que mulheres com dificuldades de engravidar ajudam-se mutuamente) e “Tudo sobre o DIU”.

Os benefícios para as participantes desses grupos são muitos. O intercâmbio de experiências possibilita o entendimento de seus problemas, tratamentos ainda não experimentados e percepção coletiva sobre os limites da prática médica convencional em dar respostas às suas demandas. No entanto há um certo caminho a percorrer no sentido de politização dos discursos para que cheguem a influenciar os modelos de cuidado hegemônicos.

Há uma certa tendência à reprodução de discursos medicalizantes que faz com que as queixas de algumas mulheres sejam respondida com condutas aprendidas e socializadas pela medicina convencional. Assim, uma mulher queixando-se de ‘cistite’, não raro, será orientada sobre a necessidade de realizar um exame de urina. Em geral será guiada a procurar serviço de saúde. Mais gravemente será orientada a usar determinado antibiótico. Mas a verdade é que mulheres saudáveis, com infecção urinária não complicada (não gestante, sem febre, sem dor nas costas), podem ter um antibiótico prescrito por profissional sem necessidade de cultura de urina, que  pode atrasar o início do tratamento.

Mesmo que muitos profissionais tenham a conduta de solicitar um exame de urina antes de medicar a paciente não temos dados na literatura médica que corrobore com essa prática. Por isso é importante que as mulheres busquem informações em bases de dados científicos para sustentar suas orientações umas às outras. E é esse fazer que vai acabar influenciando a prática médica. Infelizmente a maioria das opções de informações seguras estão disponíveis em inglês. Sua tradução para pacientes é muito importante como o que faz o movimento Choosing Wisely que pretende diminuir a prática de exames e tratamentos desnecessários e ineficazes.

Acompanhei a indignação de muitas mulheres em um desses grupos com relação à orientação de que o Papanicolau poderia ser realizado a cada três anos. Conforme recomendação do Ministério da Saúde. Rapidamente somam-se histórias de amigas, conhecidas e primas que teriam morrido caso tivessem seguido essa orientação. Somam-se aí o fato de que uma alteração, quaisquer que sejam HPV, NIC 1, NIC 2 sejam compreendidas sempre como graves. E também a possibilidade de que algumas mulheres talvez realmente experimentem uma progressão mais rápida do que o esperado para determinadas alterações principalmente se foram fumantes. O importante é entender que essas recomendações são construídas com base em estudos populacionais. E que algumas vezes em situações específicas pode sim ser necessário encurtar esse período entre os exames.

Há portanto, uma tendência à sobrevalorização de experiências individuais e muitas vezes trágicas. Como a história divulgada de mulher que fez uso da pílula do dia seguinte e teve uma gestação ectópica com hemorragia e necessidade de procedimento cirúrgico. Essa experiência rapidamente espalha-se como rastilho de pólvora como recomendação e alerta para que mulheres não usem a PDS. Entretanto não há evidência que corrobore com essa associação até o momento, o que não significa que não devamos estar atentas. O fato é que vivemos em um país onde aborto é crime e muitas mulheres sofrem as consequências de abortos realizados de forma insegura. Métodos contraceptivos falham, camisinhas rompem e mulheres são estupradas. Difundir episódios como este pode colocar mulheres em risco ainda maior.

A atuação das mulheres nesses grupos ainda tende a ser bastante individualista e possivelmente elitista. Pede-se recomendação de médicos(as) – claro estão cansadas da realidade dominante nos consultórios – Mas falta perceberem o poder que podem ter quando atuarem de forma organizada. Não é infrequente por exemplo, que reclamem da falta de acesso a métodos como DIU de Cobre na Saúde Suplementar, “meu médico diz que não coloca”, e lá vai correr atrás de um médico que faça o procedimento. Ou a falta de acesso a diafragma na rede pública. E se a resposta a essa negativa fosse a ouvidoria do plano ou mesmo a ANS? A ouvidoria do SUS? Um pedido de esclarecimento ao Ministério Público? A ação civil pública pelo excesso de cesarianas pela Parto do Princípio redundou em uma regulamentação exigindo que médicos divulgassem suas taxas do procedimento. Demorou dez anos, mas aconteceu. As mulheres precisam entender a força que sua organização pode ter. Para que em dez anos tenhamos avançado para discussões mais e mais importantes. E que nossas filhas não estejam mendigando um médico que tope apoiá-la para usar o método contraceptivo que bem entenda. Começamos pequeninho, afinal o pessoal é político. Mas o tempo histórico que vivemos  não permite não pensarmos a coletividade. A garantia de direitos básicos e essenciais como saúde e educação depende de organização política, depende de abranger a percepção de questões cotidianas, de pensar nas mulheres que não participam de grupos de discussão em facebook e que provavelmente são as que mais sofrerão com os retrocessos que vivemos hoje e que temos em nosso horizonte.

Halana Faria

Ginecologista e Obstetra no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Atual em São Paulo e Florianópolis

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