Papanicolau. Todo ano ela faz tudo sempre igual, mas não faz nem ideia do porquê…

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Nenhuma rotina médica é feita em tantas mulheres sem que haja entendimento sobre seu significado como o Papanicolau ou Preventivo, que como seu nome sugere, serve à prevenção do câncer de colo uterino.

O câncer de colo uterino é uma doença causada pelo HPV que acomete em sua maioria mulheres pobres que não conseguem acessar serviços de saúde, fumantes, e usuárias de pílula anticoncepcional. Sexo protegido com camisinha feminina ou masculina pode diminuir o contágio pelo vírus HPV mas não completamente, já que ele encontra-se distribuído na área genital. Portanto, quem transa está suscetível a trocar HPV com o(a) parceiro(a).

No sexo entre mulheres, apesar de pouco factível, o uso de papel filme na região genital pode ser uma maneira de diminuir a troca mútua de HPV. Lavar mãos e objetos usados nas relações também pode ajudar na prevenção. E sim, mulheres que fazem sexo com mulheres precisam coletar Papanicolau rotineiramente caso façam sexo com penetração de dedos, dildos ou outros brinquedos.

Existem muitos subtipos de HPV. Alguns mais ligados ao desenvolvimento de câncer de colo que são chamados de alto risco. Outros mais ligados ao desenvolvimento de verrugas genitais (baixo risco). O HPV faz parte da nossa flora. Quem transa vai ter contato com o vírus mas não necessariamente manifestará algum sintoma (verruga ou alteração celular no Papanicolau). Isso dependerá da qualidade do sistema imunológico e fatores ligados à história de vida de cada pessoa. Por isso, direito a alimentação adequada, trabalho digno (incluindo aposentadoria! FORA TEMER!!!!), saúde mental e acesso a serviços de saúde protegem as mulheres do câncer de colo.

No entanto, há em nosso país uma situação de desigualdade que leva ao seguinte paradoxo. Enquanto mulheres de camadas médias são submetidas a todo tipo de rastreio (Papanicolau, colposcopia e testes de DNA para HPV) anualmente, desnecessariamente e até mesmo com danos gerados por esse excesso, são as mulheres pobres sem mínimas condições de cuidar de si mesmas e sem acesso aos serviços de saúde que morrem por câncer de colo uterino.

Conforme orientação do Ministério da Saúde, o preventivo deve ser coletado a partir dos 25 anos até os 59 anos por dois anos consecutivos, se ambos os resultados forem normais o próximo exame pode ser coletado 3 anos depois. Exames de DNA para HPV (captura híbrida) podem ser realizados com o intuito de alargar essa coleta para 5 anos caso não haja presença de HPV de alto risco.

Há controvérsias sobre a eficácia da vacina de HPV na diminuição de incidência de câncer de colo uterino. O que sabemos até hoje é que a vacina parece diminuir as lesões precursoras (que vem antes) do câncer de colo. Mas ainda não sabemos por quanto tempo a vacina protegeria uma mulher (se doses de reforço seriam necessárias). Além disso tem havido muito debate sobre os possíveis efeitos adversos (muitos deles graves) associados à vacina. Não faz sentido algum vacinar mulheres que já iniciaram vida sexual e muito menos vacinar mulheres que tiveram alterações em seus exames de Papanicolau.

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Muitas mulheres deixam de coletar o exame porque sentem que ele foi feito de maneira grosseira. Sentem-se invadidas e agredidas. Algumas condições precisam ser respeitadas para que isso não aconteça. Sala e ambiente adequados. Perneiras não são necessárias. A própria mulher pode introduzir o espéculo para que o coloque no tempo e com o cuidado necessário para que não se machuque. Esse pode ser um momento oportuno para que a mulher seja guiada pela profissional e com a ajuda de um espelho ao conhecimento de sua região genital externa e interna. A coleta é feita com a fricção de uma escovinha e uma espátula em três locais diferentes: orifício do colo, colo e fundo vaginal. Esse material é colocado em uma lâmina ou em meio líquido e vai ser olhado com microscópio à procura de alterações das células que compõe o tecido do colo.

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Colo do útero em período fértil mostrando muco cervical em clara de ovo (The beautiful cervix project)

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ESSE EXAME NÃO SERVE PARA DIAGNOSTICAR CORRIMENTOS!!! Se você tem uma alteração de flora vaginal e está com sintomas e queixas o Papanicolau nem deveria ser coletado. Infecções e inflamações podem atrapalhar a visualização das células que queremos observar. Essas condições devem ser diagnosticadas e tratadas para aí então proceder-se à coleta em um segundo momento. Mulheres menopausadas com a vagina muito ressecada também deveriam fazer um ciclo de creme vaginal com estrogênio primeiro, para depois realizar a coleta.

Alguns cuidados precisam ser tomados antes da coleta de exame: evitar coletar durante a menstruação porque o sangue pode atrapalhar a visualização das células pelo patologista. Evitar também cremes, duchas vaginais e sexo com penetração nos dois dias anteriores à coleta.

Interpretando o resultado do seu Papanicolau: A amostra deve ter sido considerada adequada ou satisfatória. Caso contrário deve ser repetido. Deve haver três tipos de células presentes: escamosa, glandular e metaplásica. Esta última representa o local onde mais acontecem alterações, ou seja a junção entre a parte escamosa (mais externa) e a parte glandular (mais interna). Para entender isso pode-se pensar que em movimento de dentro para fora do colo uterino temos um tecido que parece com um cobertor felpudo (glandular) vermelho e sangrativo. De fora para dentro, sempre tentando cobrir esse cobertor, temos um tecido que parece um lençol fininho rosado.

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Ectrópio – tecido glandular ao redor do orifício e escamoso ao seu redor (The beautiful cervix project)

O que se chama de maneira errônea de “ferida” é na verdade essa parte glandular (cobertor) exposta ou ectrópio. Uma alteração fisiológica que piora com uso de contracepção hormonal e que só deveria ser cauterizada se a mulher tem sangramentos após relação com penetração.

Agora imagine que esse tecido escamoso (lençol), onde acontecem a maioria das alterações, seja um muro com três fileiras horizontais de tijolos e que a fileira mais de baixo está mais próxima dos vasos sanguíneos e que a mais alta é a mais externa. Quando temos uma alteração como NIC 1 temos acometimento dessa camada mais alta, mais fácil de sofrer agressão do HPV porém menos grave. Quando temos um NIC 3 temos alteração dessa camada mais próxima dos vasos sanguíneos e portanto de maior gravidade.

Claro, existem outras alterações possíveis e para cada uma delas uma conduta adequada de acompanhamento. É preciso que as mulheres conheçam essas alterações e condutas para que não sejam submetidas a preocupação e biópsias desnecessárias. Mas também para que não sofram negligência quando exames e procedimentos forem necessários. É normal haver uma preocupação e certo desespero diante de resultados alterados. Mas é preciso entender que na maioria das vezes essas alterações tendem a regredir espontaneamente dentro de 6 meses a 2 anos.

Não é preciso visitar ginecologista para coletar Papanicolau. Redes Femininas de Combate ao câncer e unidades básicas de saúde estão preparadas para a realização desse exame e também a dar outras orientações necessárias. Aproveite essa ida para realizar exames sorológicos (HIV, Hepatites e Sífilis).

Halana Faria de Aguiar Andrezzo – médica ginecologista e obstetra – Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Atua em São Paulo e Florianópolis

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